O que é aula?

Como conceituar o termo aula? Em outros termos, o que devemos entender por aula no contexto universitário? O vocábulo é tão óbvio, em decorrência de sua vinculação com a prática educativa, que, a rigor, nem os livros de didática trazem estudos aprofundados sobre o tema. O que existe, e em quantidade, é a crítica severa à forma exclusiva de trabalho escolar que utiliza padrão rígido de prática pedagógica sancionada pela tradição e alicerçada unicamente na prática fechada da exposição oral.

A análise da realidade pedagógica chamada aula pressupõe a existência de, pelo menos, cinco elementos estruturantes. A aula é síntese de:

· método;
· conteúdo;
· sujeitos;
· contexto e
· intencionalidade.

A aula caracteriza-se por ser espaço cultural que acontece entre pessoas em situação de diálogo, de comunicação e intersubjetividade. É o caso específico de alguém que domina o saber, o conhecimento sistematizado e tem condições intelectuais de transmiti-lo a muitos num processo multiplicativo. É o exemplo típico de relação “um para muitos”. O aluno, por sua vez, é aquele que procura apropriar/assimilar o saber, transmitido de forma sistemática, organizada, estruturada. A aula, portanto, é o momento que a atividade de sujeitos distintos (no caso, professor e aluno) coordenam ações em função da relação ensino e aprendizagem. É a atividade subjetiva-objetiva do ato de ensinar e de se apropriar do conhecimento humano, entendido este como a maneira de compreender a estrutura da realidade físico-natural, social e humana. A aula compreende, pois, um conteúdo, isto é, um saber acumulado e, ao mesmo tempo, em expansão mediante o processo de pesquisa. O conteúdo é o conhecimento estruturado, conhecimento que se caracteriza pelo relacionamento de conceitos, leis, princípios, axiomas, observações, análises etc. O bom ensino evidencia como os conteúdos de diferentes áreas do conhecimento se relacionam interna (numa área específica de conhecimento) e externamente (entre distintas áreas do saber humano). Neste sentido, conhecer significa ir além da mera informação, porque o conhecimento pressupõe a capacidade de relacionar fatos, dados, leis, princípios, teorias etc. numa ordem lógico-conceitual que permita decifrar a realidade de maneira racional, ordenada e articulada. A aula será, enfim, o encontro da subjetividade do professor e do aluno com a objetividade do conhecimento estruturado, escolarmente traduzido sob a forma tradicional de disciplinas, fruto de pesquisa e do esforço humano em compreender e decifrar a realidade concreta do mundo. Em suma, a aula se caracteriza pela intersubjetividade da relação pedagógica entre docente-discente em função do conhecimento objetivo da realidade natural, social e humana.

Mas a aula não é somente o encontro de sujeitos distintos em função do conhecimento humano historicamente acumulado, constantemente ampliado e revisto. A aula pressupõe relacionamento metódico e regular entre docente e discente; em outros termos, a aula trabalha com conteúdos do conhecimento sob determinadas formas pedagógicas que possam permitir melhor apropriação do saber estruturado. Em outras palavras, ao tratar do conhecimento e sua assimilação/apropriação o professor opta ou decide por um método (ou forma) de colocar o aluno em contato, nem sempre vivo, diga-se, com a realidade do saber organizado e apresentado ao aluno sob a forma de disciplina ou atividade. O método (ou forma) poderá ser inadequado, não significativo para o aluno, porque longe de sua experiência de vida e das necessidades intelectuais, sociais ou culturais. Daí o cuidado de ensinar os conteúdos de forma viva, compreensiva, dinâmica e essencialmente estruturada. O uso de métodos vivos de ensino, calcados na compreensão e no diálogo entre o professor e a classe, centrados em problemas postos pela prática social e relevantes dos pontos de vista científico constitui orientação segura ao ensino significativo, tanto para o indivíduo, como para a sociedade. O método utilizado pelo docente evidencia, seguramente, a concepção de educação defendida consciente ou inconsciente, a visão de sociedade e de ser humano que subjazem à ação pedagógica. Via de regra métodos tradicionais de ensino significam adesão às pedagogias não-críticas interessadas em tratar o conteúdo pelo conteúdo. Em contrapartida métodos vivos, centrados na prática social, marcam a adesão às pedagogias críticas que valorizam o entorno, o contexto e sua transformação, o trabalho, a realidade social vivida e vivenciada pelo professor e aluno. Não se pode desprezar a formação sólida nos conteúdos científicos e tecnológicos, mas uma educação meramente científica e tecnológica seria inadequada sem a articulação com valores importantes como autonomia das pessoas e da sociedade, emancipação individual e coletiva, democracia e justiça social. Sem uma definição em relação ao sentido a ser dado aos conteúdos a educação tende a reforçar a desigualdade e a exclusão negando-se como força humanizadora. Portanto, a aula, como espaço cultural, terá de se haver com as questões postas pelo contexto e pela intencionalidade humana. A objetividade do conhecimento científico e tecnólogico é valor inestimável para a humanidade quando posta a serviço de objetivos e metas humanas. A articulação coerente entre meios e fins surge como fundamental na ação pedagógica de ensinar. Em suma, a aula, como expressão do ensino, será sempre síntese de conteúdo e forma, contexto e intencionalidade, todos articulados em função de sujeitos ou subjetividades circunscritas numa situação de ensino e aprendizagem. Entende-se que com essas notas distintivas será possível distinguir a aula da não-aula. A aula pressupõe relacionamento efetivo entre docente e alunos numa situação de ensino e aprendizagem em função de conteúdos previamente selecionados e valorizados com o objetivo de dotar as pessoas de conhecimento estruturado, sistematizado, organizado, capaz de oferecer às pessoas o instrumental simbólico útil, indispensável à leitura objetiva da realidade material, natural, social e humana. Não seria demais ressaltar que a noção de aula pressupõe ação contínua e demorada ao longo de determinado período de tempo entre pessoas com intencionalidades distintas, uma de ensinar e a outra de aprender num contexto de prática coletiva.

Trecho extraído do documento Regulamentação do Art. 57 da LDB emitido pela Pró-reitoria de Graduação da UNESP

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