Aglutinação Sinestésica — Fred Negrini

Aglutinação Sinestésica

Que estranha sensação é esta que me consome? Fito
Os teus que fitam os meus olhos fulgurantes e
Lobrigo teus lábios e teu rosto e tua roupa extravagante e
Teu sorriso apaixonantemente sensual!

Apreendido na hiperestesia do mistério sinestésico
Universal, vislumbro teu perfume primaveril, ouço
As batucadas de tua pele sensível, sinto as cores da
Tua voz ludibriantemente lasciva e por justaposição
Destas sensações, saboreio as enegrecidas e

Perfumadas cinzas do teu coração incendiado!

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O Demente velho e a Cicuta — Fred Negrini

Henry Hudson, 49 anos entardecidos pelas lamúrias da vida, era hoje um homem, ainda que impossível conceber tal fato, entristecido por vislumbrar o findar daquela única coisa que podia dizer possuir: a vida. Era alto, esbelto, carismático e as pessoas que o conheciam não podiam deixar de notar sua singularidade, seu charme, seu glamour. Possuía longos cabelos enegrecidos, zelava mal por eles quando era necessário que fossem banhados, entretanto sentia-se feliz por possuir aqueles fios mal penteados, desarrumados, frisados, algumas vezes encaracolados. Seus olhos, velados pelos óculos arcaicos que se situavam em seu fino rosto, eram verdes como duas das mais belas esmeraldas. Seu corpo era esguio e coberto de pêlos, lembrava-se ainda que raramente dos momentos em que suas coxas eram magras e imberbes, antigos tempos em que a felicidade jorrava de seu íntimo e refletia naquele tudo que não era, nem nunca foi, nem nunca poderia ter sido. Seu humor nos faz lembrar de um violento mar, ora estava no ápice da onda emergente, ora estava no fundo do oceano ao lado dos bentônicos seres, entretanto, conforme a terra girara em torno do sol, sua meditatividade aumentaria e cada vez mais conseguiria manter-se em equilíbrio com a existência terrestre, assim estabilizando-se ao topo do mar, tal qual Jesus quando caminhava pelas águas.

Sua mente não podia parar de pensar sobre os lúgubres anseios do dormir que viria, sem talvez, um futuro acordar. O não-ser de Henry apenas observava o seu pensar, este último completamente inundado pelo pavor de se perder, de se tornar a gota d’água a se desmanchar no vasto oceano. A situação que nos encontramos, nós, humanos terrestres pode parecer-te, caro leitor ingênuo, cruel, inescrupulosa, e talvez fosse. Ao completar 50 ciclos terrestres, o ser humano em questão deve dirigir-se para a Corte Gerontológica mais próxima e tomar a pílula da morte, nomeada belamente como ‘Cicuta’, pelos mais intelectuais. Claro, o estado não poderia gastar o pouco dinheiro que lhe resta, gastar os poucos recursos terrestres para manter idosos com as capacidades físicas e intelectuais degeneradas; não poderia, nem deveria.

O Sr. Hudson, pobre saxofonista de um esquecido jazz, residia na cidade de Manchester, na Bretanha; Restava-lhe um mês, um simplório ciclo mensal para que a Cicuta lhe tirasse os restos de energia vital presentes em seu invólucro espiritual; Sentia-se feliz, sempre quis saber, pressentir o não-fim. Seu sax soava com mais feeling do que nunca; quando tocava apenas a música existia, seu ser evaporava, e gostava de comparar tal situação com a morte. Essa deveria ser como o ecoar do metal em suas mãos, não há um instrumentista, apenas as notas flutuam pelo ar, alegrando aqueles de bom ouvido.

— Preparem-me um banho, eu vou — disse Henry, a seus amigos e companheiros musicais, que dividiam aquele apartamento desleixado e mal cuidado. Eles, não entendiam o que o saxofonista proferia, suas palavras cada vez mais faziam menos sentido lógico. Ele sempre se auto declarava demente, insano, louco pela emotividade da arte, mas não tão ilógico, irracional quanto agora. Vinte e quatro horas depois do breve discurso, os devaneios do futuro não-Henry sofrem calefação, em um simples instante, aqueles líquidos pensamentos somem, esvaem-se, e o tão melodioso instrumentista percebe a sensação de todo o oceano penetrar-lhe em sua gota d’água, esta que nem podia-se dizer existir mais; momentos depois o corpo dele falece, aos 49 anos e 336 dias. Ao lado da banheira de água outrora quente, um bilhete: — Fui encontrar-me com o divino! A folha seca caí da árvore, mas a árvore não se esforça.

Bom, o que é amor? — Ivan Colonhesi

Bom, o que é amor?
Amor é uma palavra sem definição exata! Descreve um sentimento, coisa abstrata!
O que é amor?
Amor é substantivo, é sujeito, predicado, objeto direto e indireto!
Diríamos o que então?
“- Amor é fogo que arde sem se ver…
…é um contentamento descontente”
Tão confuso, sem explicação!
A verdade é que ninguém sabe o que é amor!
Os que pensam que não sabem, realmente não sabem,
os que pensam que sabem, muito menos sabem!
Amor tem um significado, um sentido, uma imagem para cada pessoa.
Amor pode ser sua namorada, esposa,
seus pais, seu animal de estimação, a professora da terceira série.
Pra mim, amor é um parque verde, com árvores, e bancos onde pessoas podem se sentar,
E conversar por muitas horas em uma tarde qualquer!
O que é amor?
Bom, a única forma de definirmos amor com exatidão, é dizendo que:
Amor é Amor!

Vidas em cadência — Sara de Godoi Torello

Apesar da minha visão turva, acostumei-me a observar o ziguezaguear de algumas pipas em preto e branco no céu. Eram elas a dar vida a um dia apático, a outro dia fétido. Eu percorria entre os pés descalços dos domadores de pipas, que corriam sobre o chão árido… Aqueles pés que suportavam pesos frágeis de pequeninos corpos.

Alguns palácios de caixotes serviam de cenário. Portas e janelas eram apenas a falta de papelões ou “táubas”. E, de uma dessas janelas, sobre o parapeito, eu me acomodava e assistia às desesperanças dos maiores e às contemplações dos menores.

Pois é, alegrava-me a empolgação das crianças por coisas que os adultos desprezavam. Como o sabor das frutas, um véu noturno estrelado ou cadência de suas pipas: era como se aquele objeto, animado por certo tempo, morresse após uma grande aventura… Era assim que os meninos enxergavam. Creio que nossa própria vida deveria ser assim. Colorir os céus para, em uma sublime cadência, morrer em um pouso suave, jazer naquele solo áspero, rodeado por pés de crianças.

Aquelas pessoas… Se fossem pipas seriam mais admiradas. Contavam apenas umas com as outras. Sendo pipas ao menos alguém as regeria e alguns saberiam apreciar suas cores em caleidoscópio. Mas eram seres humanos esquecidos… Ah, nesses momentos eu prefiro ser este ser que sou, mesmo considerado desprezível! Aqueles habitantes de palacetes de papelão tinham um sorriso bordado à face pela tristeza… Pelo aconchego dos abraços uns dos outros. Braços que se fecharam abrigando corpos alheios uma vez mais, na ocasião das últimas pipas a serpentearem os céus.

Um dia, enquanto os meninos sonhavam sentados sobre a aspereza do chão, alguns homens chegaram. Pareciam estar todos vestidos igualmente, mas eu não saberia dizer em relação às cores de suas roupas. Estavam robotizados, como quem faz algo sem verdadeira aspiração. Não tinham sonhos, não apreciaram as pipas. Não voaram para entrar em suave cadência. Pareciam viver duramente. Diferentemente das crianças, das mulheres e as gargalhadas dos homens que ali habitavam, tinham a voz tão seca, áspera e cortante como o solo em que pisavam. Palacetes foram destruídos,espalhando papelões e “táubas” pelo chão, sobre sonhos que se cravaram nas fendas rochosas do solo. Alguns habitantes caíram tão linda e tristemente como as pipas. Essas, aliás, já não bailavam acima de nossas cabeças: os garotos, assustados, as deixaram morrer em queda. Alguns meninos também tombaram ao lado delas. Jaziam agora ao solo, após sua curta aventura. Juntos, enlameados, estendidos e esparramados ao chão, os sonhos de todos. E os homens uniformizados ali, a derramarem os caixotes, as vidas, os sorrisos… As pipas que nunca mais verei.

E depois o asqueroso sou eu: um simples rato! Meu crime é furtar alguns queijos aqui, acolá! O desses homens – que nunca soube ao certo quem são – é estilhaçar almas.

Poucos meninos conseguiram ser como suas pipas… Não tiveram a chance de chegar às mesmas alturas que elas. Mas a vida não é como a gente quer: entre o sonho e a realidade, existe um anjo mau que resisto ao nosso desejo.

Sara de Godoi Torello (18/05/2013)

Elegia ao passado — Otto Spark

Dores, amores…
Relação tão próxima,
Como o preto às cores…
Sem mínima, sem máxima;
Eu alforrio pudores.

Demonstro agora, sem medo,
Sabendo que já não é mais cedo,
Sentimentos, presos a tanto tempo…
Agora voando pelo vento.
Soltos, como folhas, num outono distante…
Que agora se aproxima, chegará num instante!

Por isso encarnei, desatei a falar:
Falei que senti, falei que amei…
Falei que assenti, discordei e errei.
Falei que parti, falei que me joguei…
Falei que sorri no dia em que cheguei.

De nada adiantou, só me fez desabar.
Só me fez ter ódio, mergulhar no pesar.
Lembrei de cada instante que passei com o amor.
E que ele se foda, agora, junto com todo o pudor.

Otto Spark