11 de março

Na primeira aula de Estudos Literários I o professor Luiz Gonzaga Marchezan leu e analisou o texto abaixo de Carol Bensimon, 11 de março.

Trata-se de um conto encomendado pela Folha de S. Paulo com o tema “duas horas na escuridão”. Foi publicado no caderno Cotidiano em 15 de novembro de 2009. Bensimon divide a autoria do texto com outros quatro escritores: Joca Reiners Terron, Ricardo Lísias, Bruno Zeni e Tatiana Salem Levy. Segundo ela, teve um dia e meio para concluir e 2.200 caracteres de limite.

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11 de março

Meu pai desapareceu no apagão de 1999. Antes, era bom o escuro. Vinha com chuva, e geralmente depois de um estouro, no tempo que o pai ligava para a companhia de energia elétrica e só dava ocupado. Tão ocupado que ele desistia (era fácil desistir quando os telefones eram de disco). Meu pai então me chamava para ir até a janela, e dali dava para ver um bocado de cidade: zona leste, um pedaço de sul, e quase todas as casas dos primos. A gente ficava ali, mergulhados na falta de lógica das manchas pretas e amarelas. Não era raro inclusive estarmos numa situação fronteiriça, nosso prédio como o próprio limite entre o claro e o escuro, dali para frente luz e para trás escuridão.
Depois de mapear a cidade, era hora de pegar a lanterna e, na parede branca, o pai tentava fazer um coelho com as mãos. Saía meio rinoceronte.

Cresci. E de repente o pai ficou estranho a sua maneira e eu fiquei estranha a minha maneira. O pai: 500ml diários de uísque (nacional) e um interesse além da conta por taxidermia. Eu: sombra preta, blusa preta e algum amor platônico. Luz continuava faltando, interrompendo disco ou programa de tevê, mas agora era cada um no seu quarto, eu me escondendo em mim, meu pai se escondendo nele. Em temporal, a janela batia. Ninguém dava bola. Comecei a esquecer o nome das ruas.

Na noite que o pai sumiu, meu disco do Iron Maiden parou num falsete. Fiquei um tempo ali no quarto escuro, ouvindo os ruídos que vinham da sala. Pedras de gelo no copo, palavrão, rádio de pilha, e logo mais um berro: “Rá! Eu não votei nesse presidente”. O pai tinha degringolado, fazendo um luto ao contrário: primeiro aceitou para depois se revoltar (a mãe morrera de uma doença improvável). O escuro deixava tudo mais difícil, e tanto, que ele dormia agora com a luz do banheiro acesa.
A porta da frente bateu. Fui para a janela e vi a cidade inteira sem luz, um buraco negro que havia tragado todas as ruas. Fiquei ali por muito tempo. Ouvia as buzinas soando numa avenida distante. Como seria ter mãe durante um blecaute? Enquanto isso, o pai caminhava no breu. Ia conseguir chegar ao fim da cidade antes de a luz voltar? Parecia o único jeito de não desistir do próprio sumiço.
No próximo apagão, era minha vez.