O Demente velho e a Cicuta — Fred Negrini

Henry Hudson, 49 anos entardecidos pelas lamúrias da vida, era hoje um homem, ainda que impossível conceber tal fato, entristecido por vislumbrar o findar daquela única coisa que podia dizer possuir: a vida. Era alto, esbelto, carismático e as pessoas que o conheciam não podiam deixar de notar sua singularidade, seu charme, seu glamour. Possuía longos cabelos enegrecidos, zelava mal por eles quando era necessário que fossem banhados, entretanto sentia-se feliz por possuir aqueles fios mal penteados, desarrumados, frisados, algumas vezes encaracolados. Seus olhos, velados pelos óculos arcaicos que se situavam em seu fino rosto, eram verdes como duas das mais belas esmeraldas. Seu corpo era esguio e coberto de pêlos, lembrava-se ainda que raramente dos momentos em que suas coxas eram magras e imberbes, antigos tempos em que a felicidade jorrava de seu íntimo e refletia naquele tudo que não era, nem nunca foi, nem nunca poderia ter sido. Seu humor nos faz lembrar de um violento mar, ora estava no ápice da onda emergente, ora estava no fundo do oceano ao lado dos bentônicos seres, entretanto, conforme a terra girara em torno do sol, sua meditatividade aumentaria e cada vez mais conseguiria manter-se em equilíbrio com a existência terrestre, assim estabilizando-se ao topo do mar, tal qual Jesus quando caminhava pelas águas.

Sua mente não podia parar de pensar sobre os lúgubres anseios do dormir que viria, sem talvez, um futuro acordar. O não-ser de Henry apenas observava o seu pensar, este último completamente inundado pelo pavor de se perder, de se tornar a gota d’água a se desmanchar no vasto oceano. A situação que nos encontramos, nós, humanos terrestres pode parecer-te, caro leitor ingênuo, cruel, inescrupulosa, e talvez fosse. Ao completar 50 ciclos terrestres, o ser humano em questão deve dirigir-se para a Corte Gerontológica mais próxima e tomar a pílula da morte, nomeada belamente como ‘Cicuta’, pelos mais intelectuais. Claro, o estado não poderia gastar o pouco dinheiro que lhe resta, gastar os poucos recursos terrestres para manter idosos com as capacidades físicas e intelectuais degeneradas; não poderia, nem deveria.

O Sr. Hudson, pobre saxofonista de um esquecido jazz, residia na cidade de Manchester, na Bretanha; Restava-lhe um mês, um simplório ciclo mensal para que a Cicuta lhe tirasse os restos de energia vital presentes em seu invólucro espiritual; Sentia-se feliz, sempre quis saber, pressentir o não-fim. Seu sax soava com mais feeling do que nunca; quando tocava apenas a música existia, seu ser evaporava, e gostava de comparar tal situação com a morte. Essa deveria ser como o ecoar do metal em suas mãos, não há um instrumentista, apenas as notas flutuam pelo ar, alegrando aqueles de bom ouvido.

— Preparem-me um banho, eu vou — disse Henry, a seus amigos e companheiros musicais, que dividiam aquele apartamento desleixado e mal cuidado. Eles, não entendiam o que o saxofonista proferia, suas palavras cada vez mais faziam menos sentido lógico. Ele sempre se auto declarava demente, insano, louco pela emotividade da arte, mas não tão ilógico, irracional quanto agora. Vinte e quatro horas depois do breve discurso, os devaneios do futuro não-Henry sofrem calefação, em um simples instante, aqueles líquidos pensamentos somem, esvaem-se, e o tão melodioso instrumentista percebe a sensação de todo o oceano penetrar-lhe em sua gota d’água, esta que nem podia-se dizer existir mais; momentos depois o corpo dele falece, aos 49 anos e 336 dias. Ao lado da banheira de água outrora quente, um bilhete: — Fui encontrar-me com o divino! A folha seca caí da árvore, mas a árvore não se esforça.

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Vidas em cadência — Sara de Godoi Torello

Apesar da minha visão turva, acostumei-me a observar o ziguezaguear de algumas pipas em preto e branco no céu. Eram elas a dar vida a um dia apático, a outro dia fétido. Eu percorria entre os pés descalços dos domadores de pipas, que corriam sobre o chão árido… Aqueles pés que suportavam pesos frágeis de pequeninos corpos.

Alguns palácios de caixotes serviam de cenário. Portas e janelas eram apenas a falta de papelões ou “táubas”. E, de uma dessas janelas, sobre o parapeito, eu me acomodava e assistia às desesperanças dos maiores e às contemplações dos menores.

Pois é, alegrava-me a empolgação das crianças por coisas que os adultos desprezavam. Como o sabor das frutas, um véu noturno estrelado ou cadência de suas pipas: era como se aquele objeto, animado por certo tempo, morresse após uma grande aventura… Era assim que os meninos enxergavam. Creio que nossa própria vida deveria ser assim. Colorir os céus para, em uma sublime cadência, morrer em um pouso suave, jazer naquele solo áspero, rodeado por pés de crianças.

Aquelas pessoas… Se fossem pipas seriam mais admiradas. Contavam apenas umas com as outras. Sendo pipas ao menos alguém as regeria e alguns saberiam apreciar suas cores em caleidoscópio. Mas eram seres humanos esquecidos… Ah, nesses momentos eu prefiro ser este ser que sou, mesmo considerado desprezível! Aqueles habitantes de palacetes de papelão tinham um sorriso bordado à face pela tristeza… Pelo aconchego dos abraços uns dos outros. Braços que se fecharam abrigando corpos alheios uma vez mais, na ocasião das últimas pipas a serpentearem os céus.

Um dia, enquanto os meninos sonhavam sentados sobre a aspereza do chão, alguns homens chegaram. Pareciam estar todos vestidos igualmente, mas eu não saberia dizer em relação às cores de suas roupas. Estavam robotizados, como quem faz algo sem verdadeira aspiração. Não tinham sonhos, não apreciaram as pipas. Não voaram para entrar em suave cadência. Pareciam viver duramente. Diferentemente das crianças, das mulheres e as gargalhadas dos homens que ali habitavam, tinham a voz tão seca, áspera e cortante como o solo em que pisavam. Palacetes foram destruídos,espalhando papelões e “táubas” pelo chão, sobre sonhos que se cravaram nas fendas rochosas do solo. Alguns habitantes caíram tão linda e tristemente como as pipas. Essas, aliás, já não bailavam acima de nossas cabeças: os garotos, assustados, as deixaram morrer em queda. Alguns meninos também tombaram ao lado delas. Jaziam agora ao solo, após sua curta aventura. Juntos, enlameados, estendidos e esparramados ao chão, os sonhos de todos. E os homens uniformizados ali, a derramarem os caixotes, as vidas, os sorrisos… As pipas que nunca mais verei.

E depois o asqueroso sou eu: um simples rato! Meu crime é furtar alguns queijos aqui, acolá! O desses homens – que nunca soube ao certo quem são – é estilhaçar almas.

Poucos meninos conseguiram ser como suas pipas… Não tiveram a chance de chegar às mesmas alturas que elas. Mas a vida não é como a gente quer: entre o sonho e a realidade, existe um anjo mau que resisto ao nosso desejo.

Sara de Godoi Torello (18/05/2013)

O homem mudo — Sherwood Anderson

Há uma história. — Não consigo contá-la. — Não tenho palavras. A história está quase esquecida porém lembro-me ocasionalmente.

A história diz respeito a três homens em uma casa em uma rua. Se conseguisse dizer as palavras, eu declamaria a história. Eu a sussurraria nos ouvidos das mulheres, das mães. Eu correria pelas ruas contando-a vezes sem conta. Minha língua — ela matraquearia contra meus dentes.

Os três homens estão em uma sala na casa. Um é jovem e janota.
Ele ri continuamente.

Há um segundo homem de barba longa e branca. Ele é atormentado por dúvidas porém às vezes sua dúvida o deixa e ele dorme.

Há um terceiro que tem olhos ferinos e que movimenta-se nervosamente pela sala esfregando as mãos. Os três homens estão esperando — esperando.

No andar superior da casa há uma mulher em pé com as costas contra uma parede, na penumbra ao lado de uma janela.

Esse é o alicerce da minha história e tudo o que alguma vez saberei é destilado nele.

Lembro-me de que um quarto homem veio à casa, um homem branco silencioso. Tudo era tão silencioso como o mar à noite. Os pés dele no chão de pedra da sala em que os três homens estavam não faziam som algum.

O homem com olhos ferinos tornou-se como um líquido em ebulição — ele corria de um lado para outro como um animal enjaulado. O homem velho foi contagiado por seu nervosismo — ele ficava puxando a barba.

O quarto homem, o branco, foi ao andar superior ter com a mulher.

Lá estava ela — esperando.

Quão silenciosa estava a casa — quão ruidosamente todos os relógios na vizinhança tiquetaqueavam. A mulher no andar superior almejava amor. Essa deve ter sido a história. Ela esfaimada por amor com todo o seu ser.  Ela queria trazer o amor à existência. Quando o homem branco entrou em sua presença ela saltou para frente. Seus lábios estavam entreabertos. Havia um sorriso em seus lábios.

O branco não disse nada. Em seus olhos não havia repreensão, questionamento. Seus olhos eram tão impessoais como estrelas.

No térreo o ferino gania e corria de um lado para o outro como um cachorrinho perdido faminto. O grisalho tentou segui-lo para cá e para lá porém cedo ficou cansado e deitou-se no chão para dormir. Ele nunca mais acordou.

O companheiro janota deitou-se também no chão. Ele riu e brincou com seu bigode preto minúsculo.

Não tenho palavras para contar o que aconteceu em minha história. Não consigo contar a história.

O branco silencioso pode ter sido a Morte.

A ávida mulher expectante pode ter sido a Vida.

Tanto o homem grisalho barbado como o ferino me confundem. Reflito, reflito mas não consigo entendê-los. Na maior parte do tempo, contudo, não penso neles em absoluto. Continuo pensando no janota que riu durante toda a minha história.

Se conseguisse entendê-lo, eu conseguiria entender tudo. Poderia correr o mundo contando uma história maravilhosa. Eu não mais seria mudo.

Por que não me foram dadas palavras? Por que sou sem palavra?

Tenho uma maravilhosa história para contar, porém não sei como contá-la.

Tradução do conto The Dumb Man (in Triumph of the Egg and Other Stories, 1921) de Sherwood Anderson (1876 – 1941) por Abdalan da Gama, 2013.

Aherwood Anderson

Circuito Aberto Onírico — Fred Negrini

Flutuo sobre as águas oníricas com o auxílio dos meus chinelos, feitos de platina reluzente. Canso-me de bancar o senhor de uma religião arcaica e incoerente, e evoco, através dos poderes inerentes à minha psique, o vaso repleto de vacuidade, que gira, entorta, dinamiza e dizima a água. Escuridão, pensamentos aleatórios cerceiam a expansão da supra-consciência. Foco-me no silêncio. “Acordar, trabalhar, escovar, banhar”, NÃO! Digo não à inquieta mente e atravessando uma cortina de vapor d’água (fria ou quente), insiro-me em um novo sonho. Meados do século XIII, meus longos e enegrecidos cabelos são penteados por uma serva; meu amante transubstancia-se nessa realidade mais fluida, usando nada mais que uma cueca! As outras partes de seu inventário foram removidas devido ao ardente desejo feminino que derretia em um tom verde-sáfira bemol.

– Você deseja destrancar as portas do inconsciente? – ele me pergunta, mostrando um molho de chaves.

– Já é hora! – Respondo-lhe.

Conjuro e crio através da insubstancialidade onírica um relógio que aponta somente o momento presente! Zazen. O tiquetaquear do AGORA me domina como um mantra antigo e sagrado. Revolução! Os pontos vazios vão surgindo e sugerindo que eu volte ao mundo real. “Comer, fumar, ler, beber, dirigir”. NÃO! “Beber, fumar, trabalhar, escrever, telefonar!”. Grito e não acordo. Ainda não é hora de voltar àquela realidade menos fluida. Permito-me reconstruir algum cenário qualquer como um pintor sobre o cavalete. A nova imagem me traz a impressão de que sou um exímio cinematógrafo, que risca a lousa do sonho através da caneta repleta de lucidez. Desenho no ar, novamente, um vaso: É meu querer não-absoluto pela vacuidade. Sou sugado e transposto rapidamente para o interior de um táxi, cujo motorista, um homem dracônico, interpela-me:

– Quais os seus desejos?

– Não desejo nem mesmo o não-desejar! – Respondo-lhe enquanto meu terceiro olho vibra e cintila.

– Não gostaria de saborear as mais deliciosas iguarias, fumar o tabaco mais refinado ou o descanso harmonioso de uma noite pós-trabalho. Quem sabe a poltrona mais aconchegante ou o televisor mais condicionante? – Ele me intriga

– Vil lagarto! Oferece-me tudo com as duas mãos, mas pretende engolir-me a liberdade! Não! Não desejo ser um cárcere de minhas próprias ilusões!

Escuridão e Luz! Acordo na terrestre realidade, envolto em meus cobertores e deitado na cama enquanto a cabeça repousa um pouco mais sobre o travesseiro.

 

Fred Negrini

Estrada da morte — Pamela Faria

estrada

A tarde era sombria, a estrada vazia e um longo caminho pela frente, o caminho pelo qual todos temiam em seguir.
Havia um senhor que morava na última curva da estrada e era obrigado a atravessá-la todo o final de expediente. E às vezes sua preferência era dormir na vigilância do cemitério a passar pela estrada. Nunca o aconteceu nada, mas sempre ouviu barulhos desagradáveis, pessoas falavam baixo, uma língua desconhecida e logo em seguida gritavam, gemiam, como se estivessem sendo torturadas impiedosamente.
Mais conhecido por senhor Albert, era o coveiro do cemitério local. Nunca avistou nada ao longo de seu percurso para casa, mas morria de medo do que poderia lhe acontecer.
Em uma tarde de outubro estava o senhor Albert em mais um dia de trabalho; o dia que teve de enterrar o padre da cidade. Seus parentes choravam muito e lastimavam sua perda precoce.
Uma mulher estava em prantos ao lado do túmulo recém fechado. Parecia ser a mãe, tinha a aparência de seus cinquenta anos.
O coveiro curioso para saber a idade do falecido, aproximou-se da lápide para avaliar os anos. Trinta anos, realmente era novo para morrer. Persistindo em sua curiosidade caminhou até um dos parentes e perguntou a causa da morte.
— Foi ontem. Disse uma mulher derrubando lágrimas. A noite houve um exorcismo…na estrada, ele foi chamado com urgência, pois o homem estava tentando arrancar a própria língua com as mãos. Chegando lá, Padre Vicente começa suas orações e quando toca na testa do possuído fica paralisado e sem ação cai no chão; Seus olhos começam a avermelhar-se e sua boca a rachar. Com os olhos arregalados seu último suspiro resplandece. Mesmo que os frades tentavam reanimá-lo… Nada se mexia. E o pobre homem possuído também morreu…Morreu com sua própria agonia. O coitado era sozinho da vida, olha o túmulo dele ali. Disse ela apontando para um local próximo de má aparência.
Albert caminhou até lá e focou sua visão nas escrituras da lápide que assim diziam:
“Aqui jaz o corpo de um homem que surpreendeu muitas pessoas com suas atitudes, mas sua bondade fez a sua morte e assim de todos se afastará para sempre. Ao senhor Thiago Rústico”.
Sem entender muita coisa, senhor Albert saiu de perto do túmulo e foi para sua casinha de vigilância que ficava a uns vinte metros de distancia dos recentemente falecidos. Só ficou a pensar se aquela ocasião poderia vir a acontecer com ele. E assim travou um medo ainda maior de passar ao longo da estrada, então resolveu se mudar.
No dia seguinte saiu um pouco mais cedo de casa e foi à residência do patrão. Chega, verifica a hora e decidido, bate na porta.
— Pois não. Disse um senhor de meia idade por cima dos óculos redondos e um traje de dormir.
— Senhor Joaquim, eu gostaria de pedir uma semana de folga para que eu possa me mudar.
— E por que tomou essa decisão tão de repente?
— Para poder ter acesso a minha casa é preciso passar pela estrada e nessa estrada morreu um padre e um outro homem.
— Entre, por favor. Disse o senhor arreganhando a porta e convidando o empregado a entrar. Albert entrou, sentou-se, retirou a jaqueta e colocou ao lado. Enquanto isso seu patrão pegava duas xícaras de chocolate. Sentou-se e ofereceu uma xícara ao empregado, ele pegou e agradeceu.
— Você sabe o porquê deles terem morrido na estrada?
— Sim, o padre foi até a estrada para fazer o exorcismo do homem e ambos morreram. Disse Albert com expressão de medo no rosto.
— Hoje é sexta, semana que vem você pode tirar de folga… Mas já achou a casa?
— Não senhor, tenho em vista uma casa, só que ainda não está garantida.
— Isso já é com você. Disse senhor Joaquim com indiferença. Pode ir, já está no seu horário e na segunda não precisa ir, apareça só na segunda que vem.
— Muito obrigado, desculpe pelo incomodo.
Pegou a jaqueta, se encaminhou à porta e abriu entrando no incomodo frio de inverno. Foi para o cemitério e ao longo do dia foram enterrados quatro mortos. Com a medonha curiosidade, perguntou a cada família onde haviam morrido e o motivo. Ambos eram na estrada ou perto, por mortes que ninguém conseguia identificar.
Já eram seis horas, hora de fechar e ir embora. Quando estava saindo resolveu pegar a faca do vigia para passar pela estrada.
Saiu em disparada com a faca no bolso.
O caminho do serviço para casa era, normalmente, de trinta minutos.
A estrada, como sempre, estava deserta. E o senhor Albert mesmo ouvindo os ruídos continuou em frente sem olhar para os lados.
Quando já estava no meio do caminho ouviu um longo e agudo grito. Ele não sabia se corria para longe ou se socorria quem estava em perigo.
Se fosse embora ia se sentir culpado pelo resto da vida. Então resolveu procurar da onde vinha o grito.
Suas pernas tremiam e ele suava frio. A cada passo, mais agonizante o grito ficava.
No chão encontrou rastros de sangue, adentrava no canavial.
Tomando toda sua coragem, senhor Albert aproximou-se da cana e começou a andar em direção ao centro, que de longe dava para ver um espaço vazio, uma clareira.
Tentou correr, mas com uma cambaleada caiu no chão. Rapidamente levantou-se e tirou a sujeira da roupa. Novamente quando ia continuar seu caminho ouviu o grito, só que desta vez dentro de seus tímpanos.
Se havia alguém em perigo, estava ali.
Ainda estava claro e alguma coisa podia ver, mas não avistava ninguém.
Percebeu que aquilo não era alguém em perigo e sim a própria morte… Uma armadilha.
Quando finalmente caiu a ficha, suas pernas não o obedeciam mais, seu corpo congelou e apavorado se jogou no chão. O grito ecoou novamente. Fechou os olhos, começou a sentir enjoo e começou a vomitar.
O medo já havia lhe dominado. Não conseguia fazer mais nenhum movimento, mínimo que seja. E com um esforçado suspiro sentiu como se alguém tivesse lhe enfiado a mão na memória. Em sua cabeça vinham seus piores pesadelos. Do dia em que seus pais morreram às mortes mais recentes, era como se presenciasse, mentalmente, uma por uma.
Sua vida toda havia sido um desastre e agora, mais do que nunca, se deu conta disso.
Sua agonia começou a sufocá-lo. Em poucos minutos estava estirado e morto no chão do canavial da estrada… A estrada da morte.
E assim foi nomeada a estrada. Daquele dia em diante ninguém mais se aproximou dali.
E a sua morte foi a última… A do coveiro que morrera ali.

 

Pamela Faria, 21/01/09

 

Venha ver o pôr-do-sol

Lygia Fagundes Telles

Lygia

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.

— Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

— Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.

Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.

— Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância… Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

— Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? — perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. — Hem?!

— Ah, Raquel… — e ele tomou-a pelo braço rindo.

— Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado… Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?

— Podia ter escolhido um outro lugar, não? — Abrandara a voz — E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

— Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo — acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. — Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?

Brandamente ele a tomou pela cintura.

— Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

— Ver o pôr-do-sol!… Ah, meu Deus… Fabuloso, fabuloso!… Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério…

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

— Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura…

— E você acha que eu iria?

— Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada… — disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento — Você fez bem em vir.

— Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

— Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

— Mas eu pago.

— Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

— Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.

— Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado — prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. — Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

— É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

— Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…

O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

— É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente — exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.— Vamos embora, Ricardo, chega.

— Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

— Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

— Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

— É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

— Ele é tão rico assim?

— Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

— Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

— Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã… Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.

— É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?

— Nenhum — respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: — A minha querida esposa, eternas saudades — leu em voz baixa. Fez um muxoxo.— Pois sim. Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja — disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda —, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas… Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

— Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim — Deu-lhe um rápido beijo na face. — Chega Ricardo, quero ir embora.

— Mais alguns passos…

— Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! — Olhou para atrás. — Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

— A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio — lamentou ele, impelindo-a para frente. — Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr-do-sol. — E, tomando-a pela cintura: — Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

— Sua prima também?

— Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos… Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas… Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

— Vocês se amaram?

— Ela me amou. Foi a única criatura que… — Fez um gesto. — Enfim não tem importância.

Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o

— Eu gostei de você, Ricardo.

— E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

— Esfriou, não? Vamos embora.

— Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

— Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.

— Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?

— Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

— E lá embaixo?

— Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó — murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. — A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

— Todas estas gavetas estão cheias?

— Cheias?… — Sorriu.— Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe — prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

— Vamos, Ricardo, vamos.

— Você está com medo?

— Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:

— A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?… — Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.— Não, não é que fosse bonita, mas os olhos… Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

— Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

— Pegue, dá para ver muito bem… — Afastou-se para o lado.— Repare nos olhos.

— Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça… — Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.— Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida… — Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel — Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

— Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! — exclamou ela, subindo rapidamente a escada. — Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

— Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! — ordenou, torcendo o trinco.— Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

— Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

— Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! — Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. — Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

— Boa noite, Raquel.

— Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… — gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.— Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! — exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.

— Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

— Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

— Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

— NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Do livro Antes do Baile Verde, publicado em 1970.

 

11 de março

Na primeira aula de Estudos Literários I o professor Luiz Gonzaga Marchezan leu e analisou o texto abaixo de Carol Bensimon, 11 de março.

Trata-se de um conto encomendado pela Folha de S. Paulo com o tema “duas horas na escuridão”. Foi publicado no caderno Cotidiano em 15 de novembro de 2009. Bensimon divide a autoria do texto com outros quatro escritores: Joca Reiners Terron, Ricardo Lísias, Bruno Zeni e Tatiana Salem Levy. Segundo ela, teve um dia e meio para concluir e 2.200 caracteres de limite.

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11 de março

Meu pai desapareceu no apagão de 1999. Antes, era bom o escuro. Vinha com chuva, e geralmente depois de um estouro, no tempo que o pai ligava para a companhia de energia elétrica e só dava ocupado. Tão ocupado que ele desistia (era fácil desistir quando os telefones eram de disco). Meu pai então me chamava para ir até a janela, e dali dava para ver um bocado de cidade: zona leste, um pedaço de sul, e quase todas as casas dos primos. A gente ficava ali, mergulhados na falta de lógica das manchas pretas e amarelas. Não era raro inclusive estarmos numa situação fronteiriça, nosso prédio como o próprio limite entre o claro e o escuro, dali para frente luz e para trás escuridão.
Depois de mapear a cidade, era hora de pegar a lanterna e, na parede branca, o pai tentava fazer um coelho com as mãos. Saía meio rinoceronte.

Cresci. E de repente o pai ficou estranho a sua maneira e eu fiquei estranha a minha maneira. O pai: 500ml diários de uísque (nacional) e um interesse além da conta por taxidermia. Eu: sombra preta, blusa preta e algum amor platônico. Luz continuava faltando, interrompendo disco ou programa de tevê, mas agora era cada um no seu quarto, eu me escondendo em mim, meu pai se escondendo nele. Em temporal, a janela batia. Ninguém dava bola. Comecei a esquecer o nome das ruas.

Na noite que o pai sumiu, meu disco do Iron Maiden parou num falsete. Fiquei um tempo ali no quarto escuro, ouvindo os ruídos que vinham da sala. Pedras de gelo no copo, palavrão, rádio de pilha, e logo mais um berro: “Rá! Eu não votei nesse presidente”. O pai tinha degringolado, fazendo um luto ao contrário: primeiro aceitou para depois se revoltar (a mãe morrera de uma doença improvável). O escuro deixava tudo mais difícil, e tanto, que ele dormia agora com a luz do banheiro acesa.
A porta da frente bateu. Fui para a janela e vi a cidade inteira sem luz, um buraco negro que havia tragado todas as ruas. Fiquei ali por muito tempo. Ouvia as buzinas soando numa avenida distante. Como seria ter mãe durante um blecaute? Enquanto isso, o pai caminhava no breu. Ia conseguir chegar ao fim da cidade antes de a luz voltar? Parecia o único jeito de não desistir do próprio sumiço.
No próximo apagão, era minha vez.