Vidas em cadência — Sara de Godoi Torello

Apesar da minha visão turva, acostumei-me a observar o ziguezaguear de algumas pipas em preto e branco no céu. Eram elas a dar vida a um dia apático, a outro dia fétido. Eu percorria entre os pés descalços dos domadores de pipas, que corriam sobre o chão árido… Aqueles pés que suportavam pesos frágeis de pequeninos corpos.

Alguns palácios de caixotes serviam de cenário. Portas e janelas eram apenas a falta de papelões ou “táubas”. E, de uma dessas janelas, sobre o parapeito, eu me acomodava e assistia às desesperanças dos maiores e às contemplações dos menores.

Pois é, alegrava-me a empolgação das crianças por coisas que os adultos desprezavam. Como o sabor das frutas, um véu noturno estrelado ou cadência de suas pipas: era como se aquele objeto, animado por certo tempo, morresse após uma grande aventura… Era assim que os meninos enxergavam. Creio que nossa própria vida deveria ser assim. Colorir os céus para, em uma sublime cadência, morrer em um pouso suave, jazer naquele solo áspero, rodeado por pés de crianças.

Aquelas pessoas… Se fossem pipas seriam mais admiradas. Contavam apenas umas com as outras. Sendo pipas ao menos alguém as regeria e alguns saberiam apreciar suas cores em caleidoscópio. Mas eram seres humanos esquecidos… Ah, nesses momentos eu prefiro ser este ser que sou, mesmo considerado desprezível! Aqueles habitantes de palacetes de papelão tinham um sorriso bordado à face pela tristeza… Pelo aconchego dos abraços uns dos outros. Braços que se fecharam abrigando corpos alheios uma vez mais, na ocasião das últimas pipas a serpentearem os céus.

Um dia, enquanto os meninos sonhavam sentados sobre a aspereza do chão, alguns homens chegaram. Pareciam estar todos vestidos igualmente, mas eu não saberia dizer em relação às cores de suas roupas. Estavam robotizados, como quem faz algo sem verdadeira aspiração. Não tinham sonhos, não apreciaram as pipas. Não voaram para entrar em suave cadência. Pareciam viver duramente. Diferentemente das crianças, das mulheres e as gargalhadas dos homens que ali habitavam, tinham a voz tão seca, áspera e cortante como o solo em que pisavam. Palacetes foram destruídos,espalhando papelões e “táubas” pelo chão, sobre sonhos que se cravaram nas fendas rochosas do solo. Alguns habitantes caíram tão linda e tristemente como as pipas. Essas, aliás, já não bailavam acima de nossas cabeças: os garotos, assustados, as deixaram morrer em queda. Alguns meninos também tombaram ao lado delas. Jaziam agora ao solo, após sua curta aventura. Juntos, enlameados, estendidos e esparramados ao chão, os sonhos de todos. E os homens uniformizados ali, a derramarem os caixotes, as vidas, os sorrisos… As pipas que nunca mais verei.

E depois o asqueroso sou eu: um simples rato! Meu crime é furtar alguns queijos aqui, acolá! O desses homens – que nunca soube ao certo quem são – é estilhaçar almas.

Poucos meninos conseguiram ser como suas pipas… Não tiveram a chance de chegar às mesmas alturas que elas. Mas a vida não é como a gente quer: entre o sonho e a realidade, existe um anjo mau que resisto ao nosso desejo.

Sara de Godoi Torello (18/05/2013)